Número de atletas federados cai quase 80% durante a pandemia

Há um temor que muitos destes atletas desistam de forma definitiva e não retomem mais a prática regular de atividades físicas
volley

Quem acompanha meus escritos aqui na revista eletrônica do canal Olhar Brasileiro em Portugal já deve ter observado o quanto o desporto está presente na minha vida e o tanto que o defendo como grande elemento de integração social e promotor de saúde pública.

Inclusive, como já abordei em outras oportunidades, muitas crianças brasileiras que chegam a Portugal são inseridas social e culturalmente através da escola, mas, também, pelo viés da prática desportiva. O desporto é lazer, mas também proporciona saúde, bem-estar, traz qualidade de vida, disciplina, educa e socializa. Portanto, entender o desporto como fator essencial neste contexto de reinserção social em fase de transição na vida de crianças e jovens é tema bastante pertinente para as famílias que encaram o desafio de recomeçar a vida fora do país de origem.

Lá no artigo intitulado Pandemia coloca em risco o futebol de formação em Portugal, alertei para os riscos a partir do fechamento dos clubes que proporcionam a crianças e jovens a prática de atividade física através do desporto federado.

Agora, passados quatro meses, podemos reforçar este argumento com números concretos. Recentemente, o Jornal de Notícias trouxe um estudo sobre a queda vertiginosa da prática desportiva federada em Portugal, consequência das medidas restritivas que visam combater a proliferação do novo coronavírus.

Uma das iniciativas governamentais neste contexto pandêmico foi a suspensão de todas as competições desportivas não profissionais. Em 10 de março, por exemplo, atendendo regulamentações da Direção-Geral da Saúde (DGS), Federação Portuguesa de Futebol (FPF) e associações distritais (equivalentes às federações estaduais no Brasil), todos os clubes tiveram as suas atividades encerradas, relativamente aos escalões de formação (categorias de base). A partir daí, outras modalidades tiveram o mesmo desfecho.

Após alguns debates entre vários setores da sociedade civil e Estado, mediante criação e implementação de rigoroso protocolo de higiene e segurança, algumas modalidades tiveram suas atividades reabertas em meados de junho, desde que fossem orientadas e praticadas com uma série de condicionantes. Ainda não podia-se competir, mas já era possível treinar.

Entretanto, as limitações de treino em contexto competitivo, o receio de contágio e a falta de competições levaram a um assustador número de desistências, que podem ter consequências a médio e longo prazo. Segundo os números apontados pelo Jornal de Notícias (JN), as modalidades de futebol, futsal, hóquei em patins, voleibol, basquetebol e andebol somadas perderam um total de 172.991 mil atletas. Na época anterior, os jovens federados eram 220.735, número que caiu para 47.774 na atual temporada. Isso dá uma desistência de 78,40%.

Ainda de acordo com o estudo do Jornal de Notícias, o voleibol, talvez por ser desporto coletivo praticado predominantemente em espaços fechados, foi o que mais perdeu praticantes. Teve que administrar uma quebra de 90% no setor masculino e de 82% no feminino. Já o hóquei em patins foi o que mais conseguiu segurar os seus atletas, tendo registrado quedas de 59% e 57% nos homens e nas mulheres, respetivamente. O futebol, que é o desporto com mais jovens federados, teve redução de 77% no masculino e 64% no feminino.

Há um temor que muitos destes atletas não retomem mais a prática regular de atividades físicas. Especialistas da área da saúde alertam que o sedentarismo provoca aumento dos índices de obesidade e diabete. Isso sem falar nos malefícios no âmbito da saúde mental, pois a competição desportiva ajuda a lidar com a ansiedade e eventuais sentimentos de depressão que esta situação pandêmica provoca.

O decréscimo no número de atletas traz também um problema aos clubes, principalmente aos menores, que acabam por perder receitas geradas através de patrocínios e mensalidades, pondo a sua sobrevivência em causa.

É fácil apontar o problema! O difícil é apontar a solução não é mesmo? O fato é que enquanto não se encontra a solução, milhares de crianças e jovens vão desistindo pelo caminho. E quando o assunto é desporto de alto rendimento, além de tudo o que já foi dito, reduz-se consideravelmente a descoberta de novos talentos. Enfim, torçamos para que os prejuízos não sejam irreversíveis.

Como positivo, aponto a grande mobilização em torno do tema. Existe preocupação e debates constantes de todos os intervenientes do desporto (pais, atletas, treinadores, dirigentes e associações) para que a retomada aconteça o mais breve possível, de forma segura e consistente. E assim, resgatar os ótimos índices de atletas federados em Portugal que se tinham antes da pandemia.

* Texto produzido para a Revista Olhar Brasileiro

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